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Era uma vez um sofá. Nada de mais simples. O mesmo sofá que se mantém como núcleo gravítico dos Amp Studios enquanto estes migram ao redor do Largo de São Domingos, em Viana do Castelo. Consta-se que neste sofá já muita gente conhecida se tinha sentado, tocado, cantado ou adormecido. Mas o seu nome só entra para a nossa história quando o seu dono, o produtor Paulo Miranda, se lembra de ir coleccionando apontamentos musicais pedidos a quem nele se aconchegava. Gente menos conhecida, gente estreante; catorze músicos ao todo. Quando acabou de colar esses pedaços colhidos ao longo do tempo, Paulo Miranda organizou um jantar para que todos os intervenientes se conhecessem e apresentou-lhes o disco que tinham feito. Tinha tantos temas quanto músicos, seria editado pela Independent Records e trazia no título o sofá que dava nome a todo o projecto – The Unplayable Sofa Guitar. The Unplayable Sofa Guitar, o disco, é um álbum de tonalidade country-blues, mas por vezes apenas subterrânea, sob o burbulhar de guitarras, efeitos e colagens. Reflexo pop-rock de uma turba de participantes aí enraizada e do trabalho de produtor que o tinha presidido (vide This Mortal Coil). Por esta altura Paulo Miranda não tocava guitarra. Este disco tinha emergido dos discos ouvidos na infância em casa dos pais e da vontade de mudança. Ele tinha feito parte dos punk Frakturados, integrou os Croix Sainte no auge do Rock Rendez-Vous e fundou os europop Infinite-E nos anos 90, já em Viana do Castelo, onde o seu estúdio servia de palco tanto a bandas de garagem quanto a bandas filarmónicas e ranchos folclóricos. A mudança, no entanto, seria maior do que a edição do primeiro The Unplayable Sofa Guitar deixava adivinhar. No mesmo ano, Miranda insiste com Francisco Silva em gravar o que viria a ser April de Old Jerusalem, álbum do ano de 2003 para o Blitz, terceiro melhor para o Público… E aí a sua visibilidade mediática enquanto produtor e misturador traz mais gente a sentar-se no sofá: Old Jerusalem para novo disco do ano em 2005 (com Twice the Humbling Sun; Blitz e Público), The Legendary Tigerman, Mecanosphere, Norton, Alla Pollaca, Alexandre Soares e Jorge Coelho, Lobster... Ao contrário de Ivo Watts-Russell, Paulo Miranda não recruta as novas visitas. Aprende a tocar a guitarra, transforma os TUSG num trio (ele, Francisco "Old Jerusalem" Silva e Ana Figueiras, a voz que apresentou o primeiro álbum ao vivo) e passam os três dois anos entre a pesquisa e a internet, imersos nas histórias de bluesman antes da II Guerra Mundial, recolhas musicais refundidas, CD’s de chamamentos de gado norte-americanos e colectâneas blues-country. Rocky Grounds, Big Sky sai em Março de 2005 (Bor Land/ Subotnick) e também estará na lista de discos do ano do Blitz. O segundo disco dos TUSG é, antes de mais, um mergulho no tempo, pede mais atenção, é mais cru; relata crimes sanguinários em vez dos gospels incluídos no primeiro disco. Mas é a velha sonoridade destas novas canções que as torna mais próximas, que faz perceber esse grande céu sobre o chão pedregoso. Ainda com qb de nuvens de produtor, mas varrido a ventos de guitarra. Ora aqui têm. Uma grande banda que não era, de uma guitarra que não se tocava. Uma guitarra que se começou a tocar quando a banda passou a ser, um trio. Discos da casa dos pais e a vida de músicos de há um século no outro lado do oceano. Um dia Paulo Miranda disse-me o que eu já sabia: "Se fores ao topo da Serra D’Arga, aquilo pode ser o North Dakota". Este ano, o italiano Ennio Morricone ganhou o Óscar de carreira pelas suas bandas sonoras, leia-se: particularmente as que passaram a querer dizer paisagens de westerns, pradarias e desfiladeiros e tal no imaginário do mundo inteiro. Ele esteve na América, aos The Unplayable Sofa Guitar falta-lhes ir à América. Mas têm um belíssimo sofá de onde olhar para ela. Texto de Eduardo Sardinha |
The Unplayable Sofa Guitar
Discografia
MP3
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